segunda-feira, 21 de abril de 2014

Projeto de Redação - 3º A e B

E. E. Buenos Aires / Sala de Leitura / Projeto Superação Jovem
Projeto de Redação Prof. Resp. Duarte Novais e Dilia 
Língua e Literaturas Brasileira e Portuguesa – Ensino Médio / 1º Sem - 2014

 Erros de Interpretação.
            Um texto é um conjunto de ideias relacionadas entre si que visam transmitir uma mensagem. Interpretar um texto significa compreender as ideias nele contidas para chegar à mensagem que ele nos propõe. Muitas vezes, entretanto, cometemos erros ao interpretar um texto.

            Os mais comuns são:
1- Extrapolação
            Trata-se de um erro muito comum. Ocorre quando saímos do contexto, acrescentando ideias que não estão presentes no texto. A interpretação fica comprometida, pois passamos a criar sobre aquilo que foi lido. Frequentemente relacionamos fatos que conhecemos, mas que era realidade em outros contextos e não naquele que está sendo analisado no momento.
2- Redução
            Trata-se de um erro oposto a extrapolação. Ocorre quando damos atenção apenas a uma parte ou aspecto do texto, esquecendo a totalidade do contexto. Privilegiamos, desse modo, apenas um fato ou uma relação ou uma relação que podem ser verdadeiros, porém insuficientes se levarmos em consideração.o conjunto das ideias.
3- Contradição
            É o mais comum dos erros, ocorre quando chegamos a uma conclusão que se opõe ao texto. Associamos ideies que, embora presentes, não se relacionam entre si. Muitas vezes os testes de interpretação apresentam palavras e expressões do texto, relacionando-as de modo equivocado. Por isso a alternativa parece ser verdadeira, quando na verdade não o é.

Fragmentos Comentados
“Naquele dia Pedro chegou do trabalho no horário de costume. Brigou com a mulher e foi ao cinema”.
Considere as seguintes afirmações:
a) Pedro é um trabalhador.
b) Pedro desentendeu-se com a mulher.
c) Pedro brigou com a mulher para ir ao cinema.
d) Pedro brigou com a mulher porque ela não queria ir ao cinema com ele.
e) Pedro foi ao cinema sozinho.
f) Pedro chegou ao trabalho no horário de costume para ir ao cinema. 

Fragmento para Interpretação.
            Observe com atenção o fragmento abaixo e assinale a única alternativa correta justificando-a:
“Em todo o mundo, as plantas medicinais voltam a suscitar grande interesse”. Preocupado com os excessos das civilizações industriais e com as ameaças que esses excessos trazem à saúde física e moral, um número cada vez maior de pessoas recorre a diferentes tipos de medicinas naturais, principalmente as plantas medicinais, num movimento de reconciliação com a natureza. “(Jean-Marie Pelt)”.
a- A indústria de plantas medicinais gera excessos que ameaçam a saúde física e moral das pessoas.
b- Preocupado com os excessos das plantas medicinais, um número cada vez maior de pessoas recorre a diferentes tipos de medicinas naturais.
c- Os excessos das civilizações industriais ameaçam à saúde física e moral, fazendo com que muitas pessoas recorram a diferentes tipos de medicinas naturais.
d- n.d.a.



E. E. Buenos Aires / Sala de Leitura / Projeto de Redação – 1ºSem. 2014
Prof. Resp. Duarte Novais e Dilia  – Língua Portuguesa
Interpretação de fragmentos de texto.

            “Um traço marcante das culturas passadas que viviam em harmonia com o ambiente era serem totalmente dependente do meio para suas necessidades quotidianas. Hoje, os seres humanos ditos desenvolvidos sabem menos sobre o meio em que vivem e são mais dependentes de produtos que recebem de longe. Essa tendência chegou ao ponto de afetar comportamentos biológicos íntimos, como a amamentação natural, e fazer da mãe uma mera preparadora de rações de leite multinacional em pó importado de outras terras.” (A. Agarwal )

a- Os seres humanos desenvolvidos são totalmente dependentes do meio para suas necessidades quotidianas.
b- As culturas passadas eram extremamente dependentes de produtos que recebiam de longe.
c- A tendência de viver em harmonia com o ambiente chegou ao ponto de afetar comportamentos biológicos íntimos.
d- n. d. a.

            “Cada vez mais se reconhece que o problema da droga é um verdadeiro mosaico de situações diversas, não havendo, portanto, um remédio único e universal para todos os casos. Cada sociedade deve abordar o seu problema de drogas de forma condizente com o seu contexto sociocultural, o que não quer dizer que um país não possa aproveitar a experiência do outro.” (M. Raw ).

a- Os problemas da droga precisam ser encarados de forma particular por cada sociedade, pois o remédio único e universal para todos os casos não é condizente com o contexto sociocultural em que surgem.
b- Embora se reconheça que o problema da droga seja um verdadeiro mosaico de situações diversas, não se pode dizer que não haja um remédio único para todos.
c- Não é possível eliminar os problemas da droga através de um remédio único e universal, pois esses problemas estão intimamente associados ao contexto sociocultural em que ocorrem, devendo, por essa razão, ser abordados de forma particular.
d- n. d. a.

MOYSÉS, Carlos A., Interpretação de textos, para concursos públicos e Vestibulares. São Paulo: Meta, 1993.

Projeto de Redação - 3º A e B


E.E. Buenos Aires / Superação Jovem / Sala de Leitura / 2014
Projeto de Redação / Prof. Resp. Dilia e Duarte Novais

Atividade: Escolha um dos temas e redija um texto Dissertativo

ÍNDICE 1 DE REDAÇÕES DISSERTATIVAS

Redação dissertativa 1: Tema: ficha limpa.Tópicos: política, corrupção, crise moral.
Redação dissertativa 2: Tema: governo brasileiro.Tópicos: relações exteriores, acordo nuclear, energia nuclear.
Redação dissertativa 3: Tema: empresas de telecomunicações.Tópicos: telefonia, empresas de telefonia, mercado de telecomunicações, telecomunicações.
Redação dissertativa 4: Tema: comércio chinês.Tópicos: mercado internacional, política cambial, comércio chinês internacional.
Redação dissertativa 5: Tema: Copa do Mundo.Tópicos: política social, amparo social, pobreza, benefícios sociais, cidadania.
Redação dissertativa 6: Tema: inadimplência.Tópicos: uso de cartão de crédito, economia popular, endividamento, gastos pessoais.
Redação dissertativa 7: Tema: defesa civil.Tópicos: calamidade pública, enchentes, descaso do poder público, tragédia, catástrofes.
Redação dissertativa 8: Tema: impostos.Tópicos: reforma tributária, cobrança de impostos, reforma fiscal, tributação, injustiça social.


Projeto de Redação - 3ºA e B

E. E. Buenos Aires / Sala de Leitura / Projeto Superação Jovem.
Prof. Resp. Duarte Novais – Projeto de Leitura e Redação.

Para acabar com os vilões e os mitos que rondam os estudantes.
ü  Tenham uma agenda para se organizar com as datas dos trabalhos, provas seminários, etc.
ü  Procurem um local tranquilo para estudar. Pode ser na sua casa, na Sala de leitura da sua Escola, numa biblioteca pública;
ü  Perguntem aos colegas como fazem para estudar. Testem varias formas de estudo até encontrar aquela que é mais adequada a vocês.
ü  Procurem estabelecer uma rotina para os estudos: escolham um horário fixo e estudem todo o dia um pouquinho.
ü  Tenham sempre à mão um dicionário, livros para consulta, ou acesso à internet. Assim vocês poderão sanar as dúvidas que encontrarem em um texto.
ü  Quando forem ler um texto, sublinhem as palavras mais importantes e façam resumos.
ü  Falem para vocês mesmos e em voz alta aquilo que acabaram de estudar. Essa é uma forma de verificar se compreenderam o que estudaram e se são capazes de dizê-lo com suas próprias palavras.
ü  Sejam um leitor antenado! Leiam tudo o que cair em suas mãos e deem atenção especial aos livros de literatura que estão a esperar por você na Sala de Leitura. Ler por prazer é um caminho sem igual para aprender sobre vocês mesmos e o mundo!Se vocês estão estudando para o vestibular, procurem fazer simulados de provas ( vocês encontram muitos na internet), formem grupos de estudos e conversem regularmente com os professores.
ü  E, claro, façam parte de um grupo de Estudos que se ajuda mutuamente. E faz de tudo, mas de tudo mesmo, para que ninguém fique para trás.

Vocês sabiam?
            A sala de Leitura de sua escola é uma aliada na luta contra os mitos e vilões que rondam os estudantes! Visite-a e pesquise seu acervo e encontre livros, revistas, enciclopédias, dicionários etc., que podem ser bastante úteis na hora de estudar. Faça o seu cadastro na Sala de Leitura para poder fazer empréstimo de livros e aproveite este espaço, que é do aluno.


Instituto Ayrton Senna, 2001.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Projeto de Redação - 3º A e B

Machado de Assis

A IGREJA DO DIABO

CAPÍTULO I

DE UMA IDEIA MIRÍFICA

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
- Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: - Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

II
ENTRE DEUS E O DIABO

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
- Que me queres tu? perguntou este.
- Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
- Explica-te.
- Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
- Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
- Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa ideia, não vos parece?
- Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor,
- Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
- Vai
- Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
- Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja?
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma ideia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse breve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
- Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê- las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
- Velho retórico! murmurou o Senhor.
- Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, - a indiferença, ao menos, - com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, - ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica, Deus interrompeu o Diabo.
- Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
- Já vos disse que não.
- Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
- Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
- Negas esta morte?
- Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
- Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.


Ill
A BOA NOVA AOS HOMENS

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
- Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu"... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regímen: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: - Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.


IV
FRANJAS E FRANJAS

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois, notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outra descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse:
- Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Prestigio - Ediouro - s/d.



Projeto de Redação - 3º A e B

E.E. Buenos Aires – Projeto Superação Jovem – Sala de Leitura
Dicas para redigir uma narração

A narração consiste em arranjar uma sequência de fatos na qual os personagens se movimentam num determinado espaço à medida que o tempo passa.

O texto narrativo é baseado na ação que envolve personagens, tempo, espaço e conflito. Seus elementos são: narrador, enredo, personagens, espaço e tempo.
Dessa forma, o texto narrativo apresenta uma determinada estrutura:

Esquematizando temos:

- Apresentação;
- Complicação ou desenvolvimento;
- Clímax;
- Desfecho.

Protagonistas e Antagonistas

A narrativa é centrada num conflito vivido pelos personagens. Diante disso, a importância dos personagens na construção do texto é evidente.
Podemos dizer que existe um protagonista (personagem principal) e um antagonista (personagem que atua contra o protagonista, impedindo-o de alcançar seus objetivos). Há também os adjuvantes ou coadjuvantes, esses são personagens secundários que também exercem papéis fundamentais na história.

Narração e Narratividade

Em nosso cotidiano encontramos textos narrativos; contamos e/ou ouvimos histórias o tempo todo.
Mas os textos que não pertencem ao campo da ficção não são considerados narração, pois essas não têm como objetivo envolver o leitor pela trama, pelo conflito.
Podemos dizer que nesses relatos há narratividade, que quer dizer, o modo de ser da narração.

Os Elementos da Narrativa

Os elementos que compõem a narrativa são:
- Foco narrativo (1º e 3º pessoa);
- Personagens (protagonista, antagonista e coadjuvante);
- Narrador (narrador-personagem, narrador-observador).
- Tempo (cronológico e psicológico);
- Espaço.
Por Marina Cabral, Especialista em Língua Portuguesa e Literatura.

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