quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

CRÔNICA

Trânsito e cidadania
Rosely Sayão


      O comportamento no trânsito, de motoristas e de pedestres, anda deplorável. A todo momento, cenas lamentáveis ocorrem: motoristas insultam e ameaçam outros motoristas ou pedestres e usam o carro como se fosse uma arma. Parece uma guerra.
      E o problema não é só nosso: recentemente, a França realizou o "dia da cortesia no trânsito", em que manter o sangue frio em todas as circunstâncias, sobretudo nos engarrafamentos, e respeitar pedestres, crianças e ciclistas foram orientações dos "dez mandamentos da cortesia ao volante", divulgados nesse dia. 
      Um dos motivos desse caos é que as pessoas não entendem que o espaço que usam com seus veículos é público. Ao entrar em um carro, propriedade privada, a fronteira entre o público e o privado, que já anda tênue, parece se dissipar. Ao dirigir ou andar nas ruas, as pessoas agem como se cada uma estivesse unicamente por si: ignoram os outros ou se sentem atrapalhadas por eles.
      As regras e os sinais de trânsito, que existem para ordenar esse espaço público, são desrespeitados repetidamente. Há movimento intenso no entorno da escola e o filho está atrasado? Poucos pais vacilam na decisão de parar em local proibido ou em fila dupla. Poucos hesitam em fazer um retorno proibido para encurtar o caminho ou mesmo em dirigir em velocidade maior do que a permitida para chegar mais rápido. Até parece que os sinais de trânsito são meros caprichos de um grupo desconhecido de pessoas. Ninguém mais parece entender que as leis de trânsito - aliás, como todas - existem para proteger os cidadãos, e não para agredi-los ou restringir suas vidas. Mas a questão é que o direito de cada um no caso do trânsito - a segurança - só é garantido quando ele próprio respeita as leis.
      Pelo jeito, o carro deixou de ser um veículo de transporte cujo objetivo é levar as pessoas de um local a outro. Virou sinônimo de poder ou de status. Uma pesquisa britânica mostrou que dois em cada três homens trocariam suas namoradas pelo carro de seus sonhos, vejam só! 
       A ideia de cidadania ganhou tom pejorativo por causa do individualismo, e isso pode ser constatado principalmente no trânsito. Cidadania supõe se responsabilizar pelo coletivo e, sobretudo no trânsito, o que vemos são atitudes de confronto e de competição. Creio que não é exagero afirmar que vivemos tempos de barbárie nessa questão: cada um por si, e vale tudo para atingir a meta pessoal. 
      Quando os adultos se comportam assim, ignoram também que colocam os mais novos em risco. São os jovens as maiores vítimas de acidentes de trânsito ou de brigas por desentendimentos com outros motoristas, pedestres ou motociclistas. Isso sem falar nas lições de incivilidade e de grosseria que são passadas a eles. E os velhos? Eles que não se atrevam a dirigir ou a andar pelas ruas. Afinal, lugar de velho e de criança não é mais na rua. Não é isso o que temos cultivado?
      Precisamos continuamente lembrar - e praticar - que, no trânsito, o respeito às leis e os bons modos permitem maior qualidade de vida a todos nós.

CRÔNICAS

Mar
Rubem Braga

      A primeira vez que eu vi o mar eu não estava sozinho. Estava no meio de um
bando enorme de meninos. Nós tínhamos viajado para ver o mar. No meio de nós havia
apenas um menino que já o tinha visto. Ele nos contava que havia três espécies de mar:
o mar mesmo, a maré, que é menor que o mar, e a marola, que é menor que a maré.
Logo a gente fazia ideia de um lago enorme e duas lagoas. Mas o menino explicava que
não. O mar entrava pela maré e a maré entrava pela marola. A marola vinha e voltava. A
maré enchia e vazava. O mar às vezes tinha espuma e às vezes não tinha. Isso
perturbava ainda mais a imagem. Três lagoas mexendo, esvaziando e enchendo, com
uns rios no meio, às vezes uma porção de espumas, tudo isso muito salgado, azul, com
ventos.
       Fomos ver o mar. Era de manhã, fazia sol. De repente houve um grito: o mar!
Era qualquer coisa de largo, de inesperado. Estava bem verde perto da terra, e mais
longe estava azul. Nós todos gritamos, numa gritaria infernal, e saímos correndo para o
lado do mar. As ondas batiam nas pedras e jogavam espuma que brilhava ao sol. Ondas
grandes, cheias, que explodiam com barulho. Ficamos ali parados, com a respiração
apressada, vendo o mar...
       Depois o mar entrou na minha infância e tomou conta de uma adolescência toda,
com seu cheiro bom, os seus ventos, suas chuvas, seus peixes, seu barulho, sua grande
e espantosa beleza. Um menino de calças curtas, pernas queimadas pelo sol, cabelos
cheios de sal, chapéu de palha. Um menino que pescava e que passava horas e horas
dentro da canoa, longe da terra, atrás de uma bobagem qualquer - como aquela caravela
de franjas azuis que boiava e afundava e que, afinal, queimou sua mão... Um rapaz de
14 ou 15 anos que nas noites de lua cheia, quando a maré baixa e descobre tudo e a
praia é imensa, ia na praia sentar numa canoa, entrar numa roda, amar perdidamente,
eternamente, alguém que passava pelo areal branco e dava boa noite... Que andava
longas horas pela praia infinita para catar conchas e búzios crespos e conversava com os
pescadores que consertavam as redes. Um menino que levava na canoa um pedaço de
pão e um livro, e voltava sem estudar nada, com vontade de dizer uma porção de coisas
que não sabia dizer – que ainda não sabe dizer.
       Mar maior que a terra, mar do primeiro amor, mar dos pobres pescadores
maratimbas, mar das cantigas do Catambá, mar das festas, mar terrível daquela morte
que nos assustou, mar das tempestades de repente, mar do alto e mar da praia, mar de
pedra e mar do mangue... A primeira vez que sai sozinho numa canoa parecia ter
montado num cavalo bravo e bom, senti força e perigo, senti orgulho de embicar numa
onda um segundo antes da arrebentação. A primeira vez que estive quase morrendo
afogado, quando a água batia na minha cara e a corrente do "arrieiro" me puxava para
fora, não gritei nem fiz gestos de socorro; lutei sozinho, cresci dentro de mim mesmo.
Mar suave e oleoso, lambendo o batelão. Mar dos peixes estranhos, mar virando a
canoa, mar das pescarias noturnas de camarão para isca. Mar diário e enorme,
ocupando toda a vida, uma vida de bamboleio de canoa, de paciência, de força,
de sacrifício sem finalidade, de perigo sem sentido, de lirismo, de energia; grande
perigoso mar fabricando um homem...
       Este homem esqueceu, grande mar, muita coisa que aprendeu contigo. Este
homem tem andado por aí, ora aflito, ora chateado, dispersivo, fraco, sem paciência,
mais corajoso que audacioso, incapaz de ficar parado e incapaz de fazer qualquer coisa,
gastando-se como se gasta um cigarro. Este homem esqueceu muita coisa mas há muita
coisa que ele aprendeu contigo e que não esqueceu, que ficou, obscura e forte, dentro
dele, no seu peito. Mar, este homem pode ser um mau filho, mas ele é teu filho, é um
dos teus, e ainda pode comparecer diante de ti gritando, sem glória, mas sem remorso,
como naquela manhã em que ficamos parados, respirando depressa, perante as grandes
ondas que arrebentavam - um punhado de meninos vendo pela primeira vez o mar...



Professores de inglês
Cecília Meireles


      Hoje qualquer pessoa pode aprender inglês com a maior facilidade: há institutos e cursos especializados, livros que dispensam professor, aulas pelo rádio e pela televisão, métodos tão modernos que nem me atrevo a descrever, com medo de me sentir inatual. Mas houve um tempo em que não era assim: os professores de inglês eram difíceis de encontrar, os alunos também não pareciam muito numerosos, a literatura francesa dominava com uma encantadora prepotência, e parece que todo brasileiro educado devia saber, em matéria de idiomas, apenas português e francês.
     
Mas, por ter descoberto Keats e Shelley, nem sei bem como eu andava à procura de quem me ensinasse inglês, fosse por que método fosse, contanto que eu pudesse chegar à poesia inglesa com a maior rapidez possível.
      Comecei a frequentar um instituto onde havia muitos cursos de arte e literatura.
Parecia-me que aquele era o caminho. E dispunha-me a uma dedicação total aos meus exercícios. Mas a boa professora, embora sem ser inglesa, mas com cursos no estrangeiro, grande prática em aulas particulares e outras especificações, iniciou suas aulas com um pequeno discurso sobre a absoluta necessidade de se conjugar perfeitamente os verbos "to be" e "to have", antes de se conhecer sequer uma palavra do vocabulário.
     
Ora, nem todos os estudantes haviam descoberto Keats ou Shelley, e frequentavam as aulas por simples obrigação. Ninguém estava pensando em versos ingleses: nem mesmo a professora. E foi um tal de recitar indicativos, condicionais e subjuntivos, presentes, futuros e passados, ora perfeitos, ora imperfeitos, ora mais que perfeitos, afirmativa, negativa e interrogativamente, que aqueles solos e coros me conduziam a uma inevitável sonolência.
     
Mas havia salas próximas em que se estudavam piano e violino. De modo que eu podia descansar na música, sempre que os verbos chegavam àquele ponto de monotonia em que só me restava ou enlouquecer ou dormir.
      A minha segunda professora de inglês era inglesa mesmo. Também acreditava na eficácia dos verbos "to be" e "to have". Acrescentava-lhes ainda o "to get", ao qual se referia com um sorriso tão carinhoso que até dava vontade de se começar por aí. Mas essa professora tinha um método encantador: oferecia-me uma xícara de chá, para acompanhar as aulas. Sua sala era absolutamente igual às que se veem nos livros ilustrados para o ensino do inglês. Exceto a lareira, tudo estava lá. E como eu já sabia um pouco de verbos, passamos àquelas frases em que o chapéu ora é nosso, ora é da nossa prima e o gato ora está embaixo da mesa, ora em cima da cadeira. Mas era tão difícil chegar a Keats e Shelley!
      A terceira professora gostava de histórias de fantasmas, de sinos que batem à meia-noite, e em cima da sua mesa havia uma bola de cristal, por onde ela adivinhava o futuro. Mas no meio das suas histórias levantavam-se às vezes o "to be" e o "to have" e ela me pedia para recitar todos os seus modos e tempos acompanhando os meus esforços com um sorriso que talvez não fosse completamente macabro, mas era bastante assustador.
     
Feitas essas primeiras experiências, pareceu-me melhor ir diretamente aos autores, e, de vez em quando, aperfeiçoar-me por meio de quantos livros de "inglês sem mestre" fossem aparecendo.
     
Encerrando o ciclo das professoras, começou o dos professores. Um era persa e dava-me a traduzir sentenças filosóficas, sem se ocupar dos modos e tempos do "to be" nem do "to have". 0 outro vinha da Austrália: contava histórias de feitiçaria (esse era para o inglês falado), mas no meio das histórias ficava com tanto medo do que estava contando que era preciso tranquilizá-lo e mudar de assunto.
     
Por isso, no dia em que visitei a casa de Keats, em Roma, não pude deixar de pensar com ironia e tristeza: como são longos, às vezes, os caminhos da vida! E quanto tempo se pode levar para se chegar a um poeta!



No aeroporto
Carlos Drummond de Andrade


      Viajou meu amigo Pedro. Fui levá-lo ao Galeão, onde esperamos três horas o seu quadrimotor. Durante esse tempo, não faltou assunto para nos entretermos, embora não falássemos da vã e numerosa matéria atual. Sempre tivemos muito assunto, e não deixamos de explorá-lo a fundo. Embora Pedro seja extremamente parco de palavras, e, a bem dizer, não se digne de pronunciar nenhuma. Quando muito, emite sílabas; o mais é conversa de gestos e expressões, pelos quais se faz entender admiravelmente. E o seu sistema.
      Passou dois meses e meio em nossa casa, e foi hóspede ameno.
Sorria para os moradores, com ou sem motivo plausível. Era a sua arma, não direi secreta, porque ostensiva. A vista da pessoa humana lhe dá prazer. Seu sorriso foi logo considerado sorriso especial, revelador de suas boas intenções para com o mundo ocidental e oriental, e em particular o nosso trecho de rua. Fornecedores, vizinhos e desconhecidos, gratificados com esse sorriso (encantador, apesar da falta de dentes), abonam a classificação.
     
Devo dizer que Pedro, como visitante, nos deu trabalho; tinha horários especiais, comidas especiais, roupas especiais, sabonetes especiais, criados especiais. Mas sua simples presença e seu sorriso compensariam providências e privilégios maiores. Recebia tudo com naturalidade, sabendo-se merecedor das distinções, e ninguém se lembraria de achá-lo egoísta ou importuno. Suas horas de sono - e lhe apraz dormir não só à noite como principalmente de dia - eram respeitadas como ritos sagrados, a ponto de não ousarmos erguer a voz para não acordá-lo. Acordaria sorrindo, como de costume, e não se zangaria com a gente, porém nós mesmos é que não nos perdoaríamos o corte de seus sonhos. Assim, por conta de Pedro, deixamos de ouvir muito concerto para violino e orquestra, de Bach, mas também nossos olhos e ouvidos se forraram à tortura da tevê. Andando na ponta dos pés, ou descalços, levamos tropeções no escuro, mas sendo por amor de Pedro não tinha importância.
      Objetos que visse em nossa mão, requisitava-os. Gosta de óculos alheios (e não os usa), relógios de pulso, copos, xícaras e vidros em geral, artigos de escritório, botões simples ou de punho. Não é colecionador; gosta das coisas para pegá-las, mirá-las e (é seu costume ou sua mania, que se há de fazer) pô-las na boca.
Quem não o conhecer dirá que é péssimo costume, porém duvido que mantenha este juízo diante de Pedro, de seu sorriso sem malícia e de suas pupilas azuis - porque me esquecia de dizer que tem olhos azuis, cor que afasta qualquer suspeita ou acusação apressada, sobre a razão íntima de seus atos.
      Poderia acusá-lo de incontinência, porque não sabia distinguir entre os cômodos, e o que lhe ocorria fazer, fazia em qualquer parte? Zangar-me com ele porque destruiu a lâmpada do escritório? Não. Jamais me voltei para Pedro que ele não me sorrisse; tivesse eu um impulso de irritação, e me sentiria desarmado com a sua azul maneira de olhar-me. Eu sabia que essas coisas eram indiferentes à nossa amizade - e, até, que a nossa amizade lhes conferia caráter necessário de prova; ou gratuito, de poesia e jogo.
      Viajou meu amigo Pedro. Fico refletindo na falta que faz um amigo de um ano de idade a seu companheiro já vivido e puído. De repente o aeroporto ficou vazio.